Para todos os gostos, a cena cultural da capital vai muito além das opções oferecidas pelo poder público. Ah! E você também pode colaborar para ampliar ainda mais a movimentação na cidade

Efervescência cultural. A expressão, muito utilizada para identificar períodos históricos de intensidade na produção e circulação da cultura, tem estado na boca, inevitavelmente, de muitos goianienses. Com propostas de ocupação de espaços esquecidos na região central da capital goiana, utilização de parques e praças e, mais recentemente, a tentativa de expandir ações para outras regiões da cidade, os moradores contam com uma agenda cultural cada vez mais ampliada e divulgada.

Para o professor César Viana Teixeira, pós-doutor pelo Programa Avançado de Cultura Contemporânea da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a cultura está em diferentes partes da nossa vivência. Ele, que ministra disciplinas na Escola de Comunicação, no Instituto Goiano de Pré-História e Antropologia (IGPA) e na Coordenação de Arte e Cultura (CAC) da PUC Goiás, também é responsável pelo projeto Mostra Goiás que, semestralmente, possibilita aos alunos dos cursos de comunicação a reprodução de documentários no cinema do Centro Cultural Goiânia Ouro. Além dos alunos, o evento tem atraído pessoas interessadas em uma programação gratuita voltada para temas regionais.

Também utilizando o cinema como plataforma, o Cine Codorna, realizado no mês passado, reuniu centenas de pessoas no Beco da Codorna, para a exibição de documentários, videoclipes e compartilhamento de experiências por meio de debates. “É uma forma de reencontro com a cidade, com o que forma as bases culturais da cidade”, diz. Sobre o projeto, o docente explica que a ideia surgiu em 2014, a partir da iniciativa de dois alunos da universidade. Por conta de uma atividade proposta em sala de aula para unir teoria e prática, alunos do curso de Publicidade e Propaganda enxergaram no beco a oportunidade de ressignificação daquele espaço com ações culturais. “Estávamos no Goiânia Ouro e dois alunos foram para o beco em um intervalo e voltaram de lá empolgados com o que poderia ser feito ali. Havia muito a ser ajustado: ainda não tínhamos autorização para a utilização do espaço, a quantidade de entulho era enorme e a área era utilizada para o consumo de drogas e como estacionamento. Com a vontade de fazer acontecer, os alunos conseguiram autorização e apoio das autoridades públicas e, em maio de 2014, o beco recebeu cerca de 500 pessoas discutindo poesia marginal, grafite, skate, entre outras formas de expressão”, comemora.

160816---Cine-Codorna-Puc-VC-105

Hoje, o espaço continua recebendo eventos culturais, inclusive com o apoio de diversas empresas, entidades e coletivos para ampliar a experiência dos visitantes. “Existe uma movimentação na sociedade para desenvolver cultura. A própria sociedade se organiza nesse sentido. O beco ressurgiu como um berço da extensão universitária, mas não precisa da nossa intervenção mais. Os alunos daquela época foram à prática e a prática foi incorporada pela cidade”, constata o professor.

 

Muito além do poder público

Entre os apoiadores do Cine Codorna, diversas empresas marcaram presença. Dos eventos de ocupação dos espaços da cidade, quase todos contam com algum tipo de participação de empresas locais. É o caso do Shiva alt-bar, que, além de contribuir com a venda de produtos durante o evento, também fez barulho com a divulgação nas redes sociais. “As ocupações são muito importantes, porque levam as pessoas a relembrarem que o espaço é público, que existe para ser utilizado por elas, fazendo com que valorizarem a cidade”, afirmam os sócios Ana Canedo e Thiago Faria, em entrevista concedida ao PUC VC.

“As empresas podem contribuir com apoio às iniciativas, divulgando-as e levando seu público a participar das ocupações, bem como fortalecendo os movimentos com parcerias, seja financeiramente ou com equipamentos, mobiliário, equipe, atrações e produtos que interessam ao público das iniciativas, e preços justos, tornando a ocupação ainda mais atrativa de se engajar”, acreditam. Conhecido como um espaço voltado à diversidade e apoio a expressões culturais diversas, o Shiva já abriu suas portas para exposições, performances e shows. “A gente sempre tenta proporcionar e receber eventos de diferentes parceiros e produtores”.

Geppetto---Ana-Paula-Abrão

Quem também tem uma visão de mercado parecida é o empresário Alfredo Moreira, sócio-proprietário do Hostel 7. “Imaginamos o hostel como um polo de fomento do turismo, da cultura local e de negócios. As pessoas que se hospedam querem vivenciar a região, então acreditamos no nosso espaço como um ponto de integração”, afirma. Nesse sentido, o espaço tem aberto suas portas para a comunidade em eventos gastronômicos e culturais, como o Sun7 Cultural, realizado em janeiro como um híbrido de feira de economia criativa e sarau. Uma nova edição está sendo planejada com entusiasmo para os próximos meses, assim como uma feira de arquitetura. “Além dos eventos, em médio prazo, pretendemos apresentar novos autores no nosso espaço, por meio de um estande da Nega Lilu Editora, que é nossa parceira”, planeja. Buscando ampliar ainda mais o alcance de suas iniciativas e pretendendo ser uma plataforma de fomento para pequenos negócios locais, o hostel busca novos parceiros para abrir cada vez mais suas portas a um público apaixonado por cultura. “Ainda não é muito o que estamos fazendo, mas essa é nossa expectativa”.
Mais antiga e com um viés diferente das outras iniciativas citadas, a Oficina Cultural Geppetto, no Setor Pedro Ludovico, traz, há quase três décadas, a comunidade para dentro de seus muros com ações como a Pizzada e a Galhofada, sempre aproveitando os encontros para possibilitar apresentações artísticas dos grupos que compõem o coletivo e de artistas convidados. “Uma das premissas que norteiam o nosso trabalho e que congregam esses grupos é o fato de que a gente acredita que a transformação que a gente sonha e a conquista de uma sociedade justa e igualitária só virá quando a gente conseguir que a cultura se torne realmente democrática”, explica o coordenador, Marcos Lotufo.

Sobre o acesso ampliado à cultura, Lotufo não tem dúvidas. “No ato de estar consumindo, a gente já está fazendo cultura. A gente acredita muito firmemente nesse princípio. Quanto mais gente tomar parte nesse processo, mais rico ele vai ser”.

 

Eles agitam a cidade

Sem-Título-2

Sonhadores e habilidosos, os agitadores culturais têm tomado a linha de frente na agenda cultural de Goiânia. É o caso da escritora Pilar Bu, 33, que desde sua mudança para a cidade, vinda de São Paulo, decidiu que seria protagonista de seus sonhos na terra dos ipês e dos vendedores ambulantes de pequi. “Eu vim com essa ideia muito certa que eu queria participar da vida cultural de Goiânia. Eu sempre acreditei muito no potencial coletivo da cidade, de não esperar que alguém faça. Até porque aqui existe um campo mais promissor pra esse tipo de coisa. Em São Paulo são muitas pessoas tentando fazer as coisas, e acho que elas têm uma vibe diferente. Aqui as pessoas se ajudam muito e fazem a rede da cultura alternativa ficar ainda mais forte. Esse apoio dos outros é muito importante”, explica.

No pouco tempo após a mudança, a poeta já se orgulha da participação em diversos projetos. Com outras mulheres, formou o coletivo Minaescriba, que já promoveu oficinas literárias, debates e ações em diversos espaços, incluindo a oficina de escrita realizada durante o Sun7 Cultural. Como resultado dos trabalhos, outras iniciativas acabaram nascendo, como o grupo de novos escritores formado a partir das oficinas literárias oferecidas com o apoio do Coletivo Centopeia, o d’versos. A divisão da mediação do clube de leitura Leia Mulheres Goiânia e a atuação no projeto de mapeamento de autores independentes e pequenas editoras, e-cêntrica, também estão no currículo de Pilar.

Sem-Título-3

Outro exemplo é o artista visual Lucas Ruiz, 25, conhecido por suas Irinas (gravura criada pelo artista), que já foram expostas em diversos espaços e foram levadas para performances ao vivo, projetos fotográficos e para peças de divulgação dos eventos que o jovem ilustrador ajudou a organizar, como a Tataruê, com edições realizadas no Grande Hotel. “A oportunidade veio ao conhecer pessoas já envolvidas nessas ações e por compartilharmos a vontade de criar algo para o público, além de perceber Goiânia como um polo criativo no Centro-Oeste, onde música, arte e cultura podem ser fomentadas e bem distribuídas. No fim das contas, cultura deve unir as pessoas e, para isso, nada melhor que uma festa”, acredita.

Lucas também acha interessante a cena cultural da capital, com o aproveitamento dos espaços que a cidade oferece. Por outro lado, lamenta a dificuldade ainda enfrentada para a continuidade de projetos. “Percebo que a cena toda ainda é muito experimental, tanto que vários eventos surgem e perdem força devido à falta de apoio. Mas, pelo lado bom, ao perceber que a cidade pode ter uma agenda independente, a cena não se desanima com tanta facilidade”, pontua.

 

#FaçaAcontecer

 

“Ame o assunto que você quer tratar. Vá pelo coração. Aceite o desafio se ele for uma forma de se desenvolver pessoal e profissionalmente.”

César Viana, professor

 

“Tenha alguém em quem confiar, que vai embarcar com você nessa. Para os alunos que querem começar: comecem. Serão 300 pessoas falando que não vai dar certo, mas façam. Sempre. A força dos projetos acontece no microcosmos. Eu já ouvi tanto não que, se for pra levar essas coisas em consideração, a gente fica em casa. Quebrem essas gavetas, destruam esses armários. O não vocês já têm. É a possibilidade do sim que deve dar o tom.”

Pilar Bu, escritora

 

“Ponha no papel todo o seu projeto, seja ele do que for, busque informação e pessoas que compartilhem das mesmas e ideias e ponha em prática. Leve em consideração que essas ações começam pequenas e tomam proporções, portanto não fique desanimado se as primeiras tentativas não derem certo. Pense que sempre existirá alguém por aí disposto a abraçar sua causa!”

Lucas Ruiz, artista visual

onde