Ora cinza, ora vermelho. O céu nunca mais fora azul para Júlia, apesar da cor estar ainda presente e intensa no céu do Cerrado. Desde a proibição da livre circulação de informação, sua vida se transformou por completo. A de todos, é bem verdade.

 Sua mãe tinha sido presa e isolada anos atrás. Tantas outras pessoas pagaram o preço pela desobediência no país, ou no que sobrou dele. Não faz tanto tempo, Júlia e sua mãe ainda integravam uma grande nação da América do Sul. Após anos de guerra, o território se dividiu em quatro. Que azar parar justamente naquele pedaço! Não que tivesse notícia dos outros três novos países, mas sua realidade poderia ser diferente. Poderia estar ainda perto da mãe.

 Um de seus últimos grandes feitos juntas, antes mesmo de a guerra começar, foi a reunião de variadas obras da literatura nacional e estrangeira. Como foram espertas ao perceber o que poderia estar por vir! Sente grande orgulho do feito até hoje. Foram mais espertas ainda por conseguirem um lugar fora de suspeitas para colocar o acervo: um galpão abandonado, pertencente a um amigo da família, afastado de tudo. Júlia sempre recorre a esse lugar quando os dias começam a ficar cinzas demais. Hoje foi assim. Discretamente, esconde a moto entre as árvores para não ser pega. Livros, jornais antigos, revistas… são quase dois mil fragmentos de passado. Como as pessoas podem não se dar conta da privação que sofrem diariamente? Tudo, absolutamente toda informação passa pelo governo antes de chegar à população. Aulas de literatura são proibidas e a internet é limitada e vigiada. Ela bem sabe que existem pessoas inconformadas como ela, mas precisaria encontrá-las de outra forma que não fosse pesquisando na rede, como fazia na época da graduação. Poderia encontrar algum sinal observando a rua? Os livros dizem que sim. Ela, de fato, tem esperança, mas sabe que sozinha seria presa fácil demais.

 Junto a Cem anos de solidão, livro proibido que está terminando de ler, encontra no empoeirado galpão um antigo jornal colorido, já amarelado do tempo, que traz na capa uma reportagem sobre literatura. E era para jovens! Como se quisessem liberdade, lágrimas saltam ao chão. Digerida com o gosto amargo da saudade, a reportagem dizia o seguinte:

 

Independente do formato, pesquisas mostram que os livros têm caído de novo no gosto dos jovens. Fato é que a literatura é a porta de entrada para outros mundos, simbologias e realidades. Vai um livro aí?

A 45ª Feira do Livro de Londres, realizada no último mês de abril, trouxe uma notícia que desestabilizou o senso comum de que o brasileiro não lê: o país foi, estatisticamente, o que teve o maior crescimento na venda de livros em todo o mundo. Os dados foram recolhidos pelas empresas Nielsen, OpenBook e GfK. O principal responsável, segundo os dados, foi o universo de livros infantis. “As editoras têm buscado novas alternativas. O mercado infanto-juvenil é um grande consumidor. Em um passado não tão distante, esse mercado era quase que exclusivamente escolar”, explica o diretor da Leart Livros e presidente da Fieg Jovem, Leandro Almeida.

Outro dado, porém, chama atenção. O número de livrarias despencou no país. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), caiu de 35,5% para 27,4% o número de cidades com livrarias em 2014. “Nós procuramos diversificar os pontos de vendas e encontrar novos”, aponta Leandro. O movimento pode ser explicado, em parte, pela popularização das vendas de livros físicos, e-books e audiolivros on-line.

Economia e praticidade são apontadas por consumidores para justificar a preferência. “Tenho muito prazer em ir a sebos, mas compro a maior parte dos meus livros on-line”, justifica o estudante de Biblioteconomia Léo Talone, 22. Ele, que conta com uma coleção de quase mil títulos em casa – eram 992 até o fechamento desta matéria – prioriza o contato físico com a obra. “Preciso pegar no papel. Parece que a informação não fixa se é virtual”, defende. Atitude semelhante tem a jornalista Juliana Albuquerque, 27, que começou a se apaixonar por literatura aos 12 anos, ao ter contato com os livros de poesia que pertenciam ao avô. “A sensação de ter um livro nas mãos, para mim, é a melhor do mundo. Me sinto mais próxima da história”. Em um ano, a jornalista já chegou a ler mais de 160 títulos. “Nunca leio só um livro. No mínimo, três ou quatro ao mesmo tempo. E preciso sempre ler poesia”, explica ela, que conta sempre com livros na cabeceira da cama e no carro.

Histórias que cabem no bolso

Apaixonado por histórias, o designer de moda e diretor de imagem Eduardo Brito, 24, se divide entre as obrigações profissionais e a imersão literária. “A leitura está presente em 80% do meu dia. Como uso transporte público, costumo ler muito no ônibus, tanto livros físicos, como e-books, pelo celular”. Para facilitar no dia a dia, ele utiliza aplicativos como o Wattpad e o Kindle, além de ser assinante do serviço Kindle Unlimited, da Amazon, um serviço de livros on-demand. “Uso bem mais que o Netflix. Primeiro, pela praticidade, mas também pela variedade de livros e por ser uma plataforma onde novos autores expõem seus trabalhos. São livros incríveis, que normalmente não teriam espaço no mercado editorial”. Como resultado, foram mais de 140 livros, entre títulos de ficção e não-ficção, lidos em 2015.
Apontando praticidade, a acadêmica de Engenharia da Computação Kamylla Prado, 23, também aderiu aos e-books. “Ainda prefiro o impresso, só que geralmente leio fora de casa, então os e-books são muito mais práticos. Me adaptei bem”. Para as leituras, ela utiliza seu tablet e computador. Há anos, a jovem mantem o ritmo de três a quatro leituras ao mês.

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Tecnologia a favor dos leitores

Depois de acompanhar outros leitores compartilhando suas opiniões sobre grandes obras e outras nem tão conhecidas assim, o assistente legislativo Egnaldo Lopes, 28, resolveu se arriscar no mundo dos livrólatas criadores de conteúdo, com o canal Leituras Compartilhadas, no YouTube. “Não são resenhas, então não há formalidades. Em vídeo, eu posso dar o tom da conversa, expor as minhas impressões básicas sobre as leituras”, explica o booktuber, termo criado para definir os youtubers literários.

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Criado a pouquíssimo tempo, o canal já rende boas experiências para Egnaldo. “Estou aprendendo a criar mecanismos de maior interação com os inscritos. Eu penso que quanto mais interação, melhor. Conhecer outros interessados no assunto é sempre muito bom”, reforça. Em seus vídeos, ele comenta semanalmente livros reconhecidos em premiações nacionais, internacionais, além de obras de literatura brasileira contemporânea.

Prestes a entrar no YouTube e um pouco mais experiente nesse mundo da criação de conteúdo na internet, a analista de sistemas Juliane Barcelos, 26, é responsável, há um ano, pelo blog A World to Read (aworldtoread.com). No dia a dia, além do trabalho com tecnologia, ela faz resenhas e indicações dos livros que compra e recebe das editoras. No Facebook, a página do blog já contabiliza mais de mil curtidas. “Pretendo começar a fazer vídeos em um canal. Vou pegar uma parcela de leitores que não atinjo só com os textos”, planeja.

Na universidade 

Nem só de livros técnicos vivem as bibliotecas da universidade. Somente na PUC Goiás, dos quase 300 mil livros disponíveis, 9.834 são livros literários ou biografias. Qualquer aluno, professor e funcionário da instituição pode ter acesso ao acervo e aproveitar o silêncio dos espaços para potencializar a leitura.

Além disso, a universidade também possui uma livraria própria, localizada na Área 1, no Setor Universitário, com mais de 500 títulos de ficção e não-ficção da Editora PUC e de outros selos com descontos para alunos e professores universitários. Os preços chegam a ser até 30% menores que em outros pontos de venda. “Nosso diferencial é disponibilizar o livro a preço acessível à comunidade universitária”, destaca a supervisora do local, Janilde Ribeiro de Moraes.

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Quem dedica várias horas do dia à leitura precisa se preocupar também com a saúde dos olhos. Para trazer dicas, consultamos o oftalmologista e professor da PUC Goiás, Francisco Wellington Rodrigues.

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