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O desafio da ansiedade em meio a mudanças inesperadas

Se as mudanças, mesmo as mais desejadas, geram insegurança e ansiedade, imagine aquelas que chegam sem pedir licença? É justamente o que vivemos hoje. De repente, um novo modo de fazer as coisas, de estudar, de trabalhar, de conviver toma conta de nossas vidas e não podemos recusar, não tivemos escolha.

E agora? Diante de tantas incertezas, uma velha conhecida de alguns, ainda desconhecida por outros, chega junto com o inesperado: a ansiedade. E tão acostumados a um mundo que nos cobra contas exatas, atitudes concretas, competência e eficiência, lidar com o incerto provoca impactos emocionais que ainda não sabemos ser possível mensurar.

Em tempos de distanciamento social e com demonstrações físicas de afeto, tão comuns entre nós proibidas, sofremos um pouco mais e o risco de se desenvolver quadros de estresse, que afetam o bem-estar e a saúde, se torna ainda maior. Mas se ficamos um pouco perdidos, vivendo uma espécie de luto coletivo, também existe a certeza de que não estamos sozinhos, que mesmo a distância podemos nos ajudar e que, além disso, a adoção de alguns hábitos pode colaborar para amenizar estes quadros.

“O contexto atual tem exigido de todos nós comportamentos adaptativos. Fomos obrigados a mudar nossa forma de conviver, nos afastamos fisicamente de algumas pessoas e nos aproximamos de outras. Mudamos nossa forma de nos cumprimentar, passamos a fazer ‘visitas por vídeo’, muitos estão tendo que reinventar a forma de trabalho e isso tem se aplicado a todas as nossas relações. Mas todo esse movimento para se adaptar exige de cada pessoa um grande esforço e que por um curto espaço de tempo pode ser desafiador, motivador, produtivo”, diz o professor do curso de Psicologia da PUC Goiás, Flávio Borges, que resume o que todos estamos passando mundo afora.  

Flávio explica que a ansiedade é uma defesa do nosso organismo, um sentimento adequado e adaptado ao momento que estamos passando. Mas é preciso ter cuidado: “No meio de situações de crise, um comportamento totalmente adaptado consiste em tentar antecipar cenários, criar expectativas”. Só que muitas vezes, desenvolvemos preocupações exageradas e/ou infundadas, o que pode desencadear quadros de estresse e ansiedade excessivos.

“Apesar da importância da ansiedade para nos preparamos para enfrentar desafios ou fugir de situações que nos coloca em risco, o sentimento de ansiedade pode ficar desregulado e pode ao invés de funcionar como um alarme útil, se tornar um transtorno”, explica. E é aí quer mora o problema. Ao se tornar um transtorno, começa a gerar prejuízos funcionais, alteração no sono e no apetite, irritação e agressividade, pensamentos catastróficos ou negativos. Essas manifestações, no entanto, ocorrem em quadros extremos, que podem ser evitados.

Uma nova rotina

Esses sentimentos tomaram conta de parte da comunidade acadêmica, que repentinamente se viu diante de uma nova rotina, que exigiu muito esforço de adaptação. No entanto, o esforço coletivo de professores, estudantes e funcionários deu início a uma nova rotina que, mesmo diante de uma mudança inesperada, vem sendo construída e, com isso, afastando a insegurança que rondou a todos no início do processo de isolamento imposto pela pandemia provocada pelo novo coronavírus.

“Aos poucos uma rotina foi se estabelecendo, fomos nos ajustando ao novo calendário e novas perspectivas foram se formando. Às vezes podemos até reclamar um pouco das tarefas, o que é normal e também acontecia em outros momentos no semestre letivo presencial. Mas, na prática, as aulas on-line oferecem proposito, rotina e são muito úteis na mudam nosso foco”, afirma o psicólogo.

Flávio Borges observa que a interação entre professores, alunos e funcionários, através do regime remoto, também tem funcionado com um apoio qualificado, que ajuda a lidar com quadros de ansiedade e estresse.  “Podemos dizer que somos mais fortes juntos e que, ao nos apoiarmos, oferecemos além de suporte emocional, esperança de sairemos todos melhores desse momento que estamos enfrentando”, finaliza.

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