A audição deste sotaque diferente nas ruas de Goiânia motivou a pesquisa da professora Nágila Ibrahim, que mostra o corredor migratório do estado nordestino para Goiás

Nas ruas de Goiânia, é possível escutar várias expressões típicas do Maranhão, do hein-hein ao pequeno, o sotaque goiano ganha reforço deste timbre nordestino, que desde a década de 1930 está presente na cultura goiana com encremento especial a partir de 1990. É o que mostra a pesquisa Migração maranhense para cidade de Goiânia, coordenada pela professora doutora Nágila Ibrahim El Kadi, no Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic) e no Núcleo de Pesquisas em Relações Internacionais.

A pesquisa, que deve ser encerrada no final deste ano com a publicação de dois artigos, foi iniciada em 2012 a partir da percepção da professora Nágila, da presença forte de maranhenses em vários pontos de trabalho em Goiânia. Com o auxílio de dois estudantes do curso de Direito, Mayara Tanja Monteiro e Luís Aurélio Montechieze, em fases distintas, ela, que é cientista social e especialista em fluxo migratório, busca dar voz e identidade à trajetória destes migrantes.

Nos três primeiros anos, o trabalho foi concentrado no levantamento de dados estatísticos e bibliográficos sobre a migração maranhense para Goiás, que acontece principalmente do interior para os principais centros goianos, incluindo capital, motivado pela busca de oportunidades de trabalho. A partir de 2015, foi iniciada a fase de entrevistas com migrantes maranhenses.

Entre os entrevistados está a segurança Juliana Pessoa da Rocha, 31, que presta serviço na PUC Goiás. Desde 2007, ela deixou a cidade de Timon, no interior do Maranhão, na divisa com Piauí, para vir morar primeiro em Rio Verde e depois em Goiânia. Na época, com três filhas, Juliana veio acompanhar o então marido. Depois, acabou se separando e seguiu a vida por aqui. “Minha vida mudou. Aqui encontrei trabalho e um novo amor”, fala ela sobre o primeiro emprego de carteira assinada, em Rio Verde, e o marido Divino de Oliveira Souza.

Em 2010, ela veio com a família para Goiânia e, em 2013, começou a trabalhar na PUC Goiás. Nunca mais voltou ao Maranhão, onde ainda mora o pai e alguns familiares. A falta de oportunidades foi o que mais a afastou do estado natal, apesar da saudade das pessoas e do tempero maranhense. “Tem muitas pessoas que vão e vêm. E não tem nada. Para poder construir alguma coisa, tem que fixar raiz. Voltar é andar pra trás”, explica ela, que espera a primeira filha goianiense, Maria Antônia, que chega em janeiro de 2016.

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Em busca de oportunidades

A busca por novas oportunidades e a realidade excludente pauta a vinda da maioria dos migrantes maranhense, segundo a doutora Nágila. Segundo ela, são exceções as pessoas com experiência de carteira assinada anterior à migração. Os dados e as informações coletadas na pesquisa mostram o impacto destes migrantes no mercado de trabalho e como o fluxo migratório é retroalimentado pelos migrantes com novas dinâmicas migratórias, como as redes sociais.

A pesquisa busca compreender o fluxo e o padrão migratório e reconhecer características e terá artigos sobre migração, trabalho e cidadania e a realidade do fluxo migratório. “A maioria destes migrantes maranhenses está em postos de trabalho que são recusados por goianos e seus empregadores reconhecem sua dedicação aos empregos”, afirma.

Para Luís Aurélio, que acompanha esta fase da pesquisa e é migrante da Bahia, o trabalho mostra uma outra possibilidade do Direito ligado à cidadania e às Ciências Sociais. “Me identifico com muito das histórias e acredito que a pesquisa pode humanizar os números e dar voz às histórias destas pessoas. Podemos problematizar a questão dos direitos destes cidadão na perspectiva da minha formação”