Acadêmicos relatam as expectativas do intercâmbio para a Europa

Do interior da Bahia e do Mato Grosso, os estudantes Paloma Guimarães, 23 anos, e Wuender Rodrigues, 22, chegaram à PUC Goiás para cursar Serviço Social e Direito, respectivamente. No mês passado, eles iniciaram uma nova etapa na vida acadêmica: o intercâmbio na Universidade de Coimbra, em Portugal. Bolsistas do Programa de Bolsas Ibero-Americanas, do Santander Universidades, os estudantes devem ficar seis meses na Europa.

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A expectativa é ampliar o conhecimento e aproveitar a temporada na instituição de ensino para desenvolver o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Ela vai se dedicar à análise do sistema português de combate às drogas. Já ele pretende estudar sobre o direito de superfície, um ramo debatido há mais tempo em Portugal do que no Brasil.

Ao todo, 21 alunos dos cursos de Serviço Social, Ciências da Computação, Direito, Relações Internacionais, Jornalismo, Arquitetura, Psicologia e Administração iniciaram o intercâmbio neste semestre. Eles estudam na Universidade de Coimbra e na Universidade de Liège, na Bélgica.
Natural da pequena Pindaí, interior da Bahia, Paloma quase não acreditou quando soube da aprovação para o intercâmbio. “Nunca sonhei em fazer intercâmbio porque era algo grande demais, distante. Pensei que só fosse acontecer daqui uns anos”, explica ela, que deixou o estágio no Tribunal de Justiça de Goiás (TJGO) e adiou a formatura por um semestre para realizar o intercâmbio.

Agricultores, os pais de Paloma também não tiveram oportunidade de prosseguir nos estudos, mas sempre incentivaram os filhos. O seu irmão, Patrick Mendes Guimarães, 22 , já graduou-se em Sistema de Informações, pela PUC Campinas. “A experiência que tenho em Goiânia vai ser muito positiva no sentido de estar aberta a mudanças e aprender a lidar com as diferenças”, prevê ela, que conta com o apoio da família.

A origem rural também está presente na vida de Wuender. Nascido e criado em Novo São Joaquim, no interior do Mato Grosso, ele deixou a casa dos pais, agricultores, para cursar a universidade em Goiânia. A irmã Wueiga Beibiane, 23, já estava na capital, onde se graduou em Farmácia. “Nunca imaginei que ganharia uma bolsa para intercâmbio”, declara.

Preocupada, a mãe inicialmente resistiu à mudança temporária, mas logo cedeu ao perceber o desejo do filho em estudar em outro país. E não é só isso: durante um semestre, Wuender estudará em uma das referências mundiais no campo do Direito. “O intercâmbio, com certeza, vai proporcionar um reconhecimento profissional”, planeja ele, que teve o apoio dos advogados do escritório onde faz estágio, nas áreas civil e empresarial.

Preparação antecipada

A preparação do estudante que deseja realizar intercâmbio deve começar com pelo menos um ano de antecedência, aponta a professora do curso de Psicologia da PUC Goiás, Ivone Félix. Primeiro, conhecendo as peculiaridades da nova casa: a língua, a cultura e os costumes do país onde pretende estudar. Depois, desenvolvendo a autonomia e a capacidade de se acostumar à distância dos amigos e da família.

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Além das atividades acadêmicas e cotidianas, o estudante precisa, inclusive, estar pronto para detectar sinais de que não está se adaptando bem ao novo país. Para Ivone, o intercambista deve ser “um aluno que já resolve seus problemas, que enfrenta sozinho as dificuldades e não tem dependência física, social ou psicológica nas relações”, aponta, defendendo a compreensão do desafio do intercâmbio pela família.

Pais e filhos devem trabalhar a questão da dependência nas relações, em geral só percebida com a distância. Antes de cruzar oceanos, a professora da PUC Goiás indica pequenos desafios, como participar de congressos ou de viagens próximas, sem a companhia de conhecidos. “Esse tipo de exercício ajuda a se acostumar a ficar sozinho e a resolver os próprios problemas, onde é mais perto e a cultura é semelhante”, ilustra

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[Entrevista]

Preparação antes de cruzar oceanos

O desafio do intercâmbio desperta expectativas nos estudantes quem sonham em viver, mesmo que por alguns meses, em outro país. Entretanto, é preciso estar preparado para cruzar oceanos e viver em outra cidade, longe dos amigos e da família.

Em entrevista ao PUC VC, a professora de Psicologia da PUC Goiás, Ivone Félix, aponta a autonomia como um dos caminhos para que a experiência traga mais lembranças positivas do que negativas. “Tem que ser um aluno que já resolve seus problemas e enfrenta sozinho as dificuldades”, analisa.

Ela aponta o apoio fundamental da família e diz que a preparação para os estudos no exterior pode começar com até um ano de antecedência, por meio, por exemplo, de viagens para outras cidades: um teste para a vida longe de casa. E faz alerta: intercâmbio é um diferencial, mas não um sinônimo de portas abertas no mercado de trabalho.

Confira o bate-papo!

PUC VC: Em que momento o aluno deve começar se planejar para encarar o intercâmbio, tendo em vista a distância dos amigos e da família, por exemplo? 

Ivone Félix: A pessoa deve, em primeiro lugar, buscar conhecer o local, conhecer a cultura do país para o qual está indo, para ver se vai se adaptar. Precisa começar a se desapegar um pouco da dependência dos pais, da dependência da família. Buscar a autonomia em todos os sentidos: desde os cuidados próprios até buscar aquilo que deseja, gosta.

A pessoa tem que ter um nível de maturidade um pouco diferenciado. Tem que ser um aluno que já resolve seus problemas, que enfrenta as dificuldades sozinho, que não tem dependência física, social ou psicológica nas relações, por que vai ter que saber como agir distante de qualquer pessoa. É uma pessoa que vai ter que se preparar inclusive para sinais de alguma coisa que não está dando certo.

PUC VC: Por exemplo?

Ivone Félix: A pessoa chega a outro país e começa a perceber que não aquilo que esperava, ela precisa ter atitude para voltar. O preparo tem que ser da família, que precisa ajudar, expondo mais esse adolescente a enfrentar os problemas que tem. Um pai e uma mãe superprotetores impedem que essa pessoa dê conta de ficar bem lá, porque a pessoa vai e, no mínimo, ela tem uma dependência emocional. O adolescente tem que ser autônomo mesmo.

[O estudante] tem a vontade de ir, já tem que começar a preparação, no mínimo um ano antes, dependendo do adolescente. É o momento que ele vai começar a conhecer a cultura, a língua, os limites de ir e vir. Mesmo quando é um país com a mesma língua, como Portugal, porque até mesmo no Brasil, de região para região, há diferenças, mudam-se muito os valores e às vezes o ambiente é complicado para a pessoa se adaptar.

PUC VC: Essa questão da família, então, é fundamental?

Ivone Félix: Sim, porque a gente não percebe o quanto é dependente da família. Só a hora que sai é que vai perceber. Até viagens mais próximas onde a pessoa passa um tempo mais independente da família, vai para o Rio [de Janeiro], para São Paulo, para uma praia, para um congresso sozinha. Esse tipo de exercício ajuda a se acostumar a ficar sozinho e a resolver os próprios problemas, onde é mais perto e a cultura é semelhante, para depois cruzar oceanos.

PUC VC: Ou seja, se a pessoa pensa em fazer intercâmbio tem que se preparar intimamente, com certa antecedência.

Ivone Félix: Tem que se preparar. Às vezes até fazer uma terapia mesmo: será que isso é realmente o que eu quero? Porque às vezes é uma fuga. E quando você usa isso como um mecanismo de fuga a tendência é não dar certo. Quando a chega lá e vê o que está acontecendo, o mundo é outro. E então a pessoa percebe que não é aquilo que ela queria.

PUC VC: A expectativa exagerada pelo momento do intercâmbio pode atrapalhar, porque a pessoa acaba não pensando em como será quando chegar ao outro país, não pensa no depois?

Ivone Félix: Com certeza. E depois que o estudante está ali naquele momento, que chegou e ‘caem’ todas as fichas, a pessoa vai falar: e agora? E ela não se preparou para nada. É necessário que a pessoa tenha um trabalho e às vezes é até natural. Se o pai e a mãe podem ir, vai com o adolescente primeiro, depois ele vai só. Aproveita o período de férias e vai até lá.

Claro, há diferença de adolescente para adolescente. Alguns são mais maduros, independentes e racionalizam mais. Mas aquele adolescente que é mais emoção é fácil de ser conduzido. Esse trabalho tem que ser percebido junto com os pais, para saber se vai precisar antes de uma terapia, se vai precisar de um trabalho mais aprofundado ou não.

PUC VC: Muitas vezes os próprios pais ficam apreensivos com a notícia de que o aluno vai para outro país. Uma recepção negativa, no primeiro momento, pode impactar o estudante?

Ivone Félix: Pode. É uma pessoa com um vínculo com o estudante. Muitas vezes, o aluno já estudou, já pesquisou, mas a fala do pai e da mãe em relação a essa situação pode fazer o adolescente recuar e ficar com medo de ir. Os pais têm que conscientizar que criam filhos para o mundo. E muitas vezes são eles que têm essa dependência com o adolescente e às vezes vai ter que fazer uma terapia familiar para trabalhar essa questão da distância, entre outras.

PUC VC: O que fazer se o estudante não estiver gostando da experiência e desejar retornar? Como lidar com a situação?  

Ivone Félix: Às vezes, a pessoa fica com vergonha não só dos pais, mas dos amigos. É preciso ficar bem claro, dentro da família, que se ele não estiver gostando, pode voltar a qualquer momento. Ele não é obrigado a tentar suportar algo que não está suportando, que ele será bem-vindo de volta.

PUC VC: No regresso, há toda uma expectativa que esse intercâmbio faça uma diferença na carreira. Como transformá-la em uma realidade?

Ivone Félix: Quando existe uma expectativa e ela é muito alta, a tendência é a frustração. Então, tem que se trabalhar antes desse aluno ir uma expectativa mais baixa, até mesmo da família que vai recebê-lo. Porque lá fora não são tão carinhosos e afetivos, como nós somos. O estudante pensa que só porque fez um intercâmbio, vai ter um diferencial enorme no mercado, todas as portas abertas. E não é bem assim.

Uma pessoa que fala outra língua e que teve uma experiência em outro país tem um reconhecimento diferente. Mas, se tiver outro profissional concorrendo a uma vaga com capacidade técnicas melhores do que quem esteve lá fora, não é isso [o intercâmbio] que vai fazer tê-lo emprego. É importante mostrar que não é só sair lá fora. É também se preparar para o mercado. O intercâmbio tem que ser um diferencial e não apenas como algo suficiente [para ingressar no mercado].