Popular nos dias atuais, a barba vai muito além da escolha de ter ou não pelos no rosto

Você provavelmente deve ter percebido que é grande o número de barbados na rua. Quase impossível não topar com um logo nos primeiros minutos de caminhada. Mas não foi sempre assim: em algum momento do século passado, ter barba – ou bigode – deixou de ser sinal de maturidade e respeito e passou a representar desleixo. Foi então que os homens das grandes cidades passaram a se preocupar em estar com a cara “limpa” e lisa para o mundo do trabalho e dos negócios. Na última década, no entanto, os pelos faciais ganharam força novamente e voltaram aos rostos de jovens e adultos, das mais diferentes profissões e idades.
Aproveitando o novo momento, empresários têm visto em Goiânia um bom lugar para a criação de barber shops, espaços de beleza com foco no público masculino. Em uma busca rápida no Facebook, é possível listar pelo menos seis estabelecimentos do tipo instalados na cidade. Além do tradicional tripé cabelo, barba e bigode, eles oferecem muito mais: limpeza de pele, peeling, massagem, pigmentação (tanto para cabelo como para barba), maquiagem, selagem, sobrancelha, entre outras possibilidades. Os espaços, claro, evitam lembrar os ambientes femininos ou unissex. “A gente percebe que quem nunca buscou esse tipo de serviço, como sobrancelha, manicure, maquiagem, passa, por ser um ambiente bem masculino, a se permitir. Temos, por exemplo, cabines reservadas para alguns serviços”, conta Thiago Pessoa, um dos sócios-fundadores da Like a Boss, barbearia-conceito instalada no Setor Bueno e em plena expansão. Além dos serviços de beleza, o espaço conta ainda com um bar e uma sala de jogos.

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Outro ponto importante dos novos espaços que têm surgido é o respeito pelos diferentes tipos e formatos de barba. Hoje dono de uma barba volumosa e característica, Sávio Bastos, 27, demorou a confiar em algum profissional. “Eu tinha certo medo. Alguém sempre comentava comigo que tinha ido a uma barbearia e que o barbeiro não tinha entendido a proposta e cortado demais”, lamenta. Quando viu que não seria mais capaz de cuidar sozinho, Sávio Bastos procurou recomendações e foi atrás da lady barber Nãna (Eliane) Agapito, da Coronel Moustache. Antes de iniciar o trabalho com Sávio, Nãna procurou conversar para entender melhor o cliente. A conversa durou mais de uma hora e resultou em uma relação de profunda confiança. “Hoje eu digo que pra onde ela for, eu vou”, brinca o rapaz, que é o capitão brasileiro da irmandade Bearded Villains.
“A gente tem que aprender a ler os clientes. Sempre tenho o cuidado de perguntar como a pessoa usa e como foi a experiência em outras barbearias”, frisa Nãna. Ela, que começou cuidando da barba do pai e do irmão em casa. antes de se apaixonar pela profissão de barbeira, lembra que quando entendeu a importância e a representatividade da barba para Sávio, fez questão de dar seu máximo. “Hoje ele é o maior querido”, comemora. A preocupação da profissional fez com que o rapaz a admirasse e indicasse para todos. Não é para menos: com a irmandade, Sávio participa de um seleto grupo internacional de homens barbudos que, entre outras coisas, luta contra o preconceito e tem como pilar a lealdade, a união e o respeito. “É muito mais que ter barba. A Bearded Villains está presente em vários países, como EUA, Finlândia, Reino Unido, África do Sul, Grécia e nós temos uma política de ser contra qualquer tipo de preconceito, como o racial, o religioso e a própria homofobia. Quem quer fazer parte da BV tem que ter essa orientação. Não é só um grupo de barbudos do Instagram”, frisa ele.
Além da luta contra o preconceito, que ele mesmo já sofreu pelo tamanho da barba, Sávio e o restante do grupo usam a plataforma para fazer o bem. “Estamos há dois meses com a BV no Brasil e já nos unimos a um projeto social chamado Menos cabelo, mais barba, voltado a fazer perucas para mulheres com câncer e gostaríamos de ajudar a fazer algo parecido para homens. Aqui em Goiânia também queremos fazer outras ações, ajudando como pudermos”. Neste mês de setembro, o grupo também se uniu à Associação Brasileira de Esclerose Lateral Amiotrófica (ABRELA), em busca de doações em suporte aos pacientes e divulgação sobre a doença.

 

COMO ME VEJOAdriano Puc VC WA - site

Assim como Sávio, o acadêmico de Engenharia de Controle e Automação na PUC Goiás, Adriano Bueno, 23, não se vê mais com o rosto completamente liso. “Acho que ela faz parte do meu rosto, no sentido de como eu me vejo. Me sinto bem com ela”, conta. O jovem explica que começou a deixar os pelos no final da adolescência, por ser alérgico à navalha, mas acabou percebendo que, trabalhando com adultos desde cedo, a barba também poderia ser uma aliada na conquista pelo respeito. “Tem essa ligação com a maturidade. Parando para pensar, eu acho que ela pode ter ajudado a terem prestado mais atenção, a me ouvirem”, analisa.

 

Cuidados

Para diferentes formatos de rosto, uma infinidade de formatos de barba. Nesse sentido, parar para pensar como o homem se percebe e como quer se ver, avaliar questões de identidade e cultura e procurar referências pode trazer mais sucesso na hora de procurar um profissional para cuidar da própria aparência. “No geral, considero que uma barba perfeita seja a que tem um alinhamento perfeito, com um desenho que combine com o rosto e que seja bem cuidada”, destaca Nãna, que sempre indica produtos próprios para a barba – coisa que não existia até pouco tempo – para os clientes. “O fio longo necessita de cuidados a mais. Produtos como shampoos e óleos ajudam muito, muito mesmo”, contata ela que, apaixonada pela profissão e bem avaliada pelos clientes, pretende unir os talentos para a barbearia e para a tatuagem em um empreendimento futuro.