Projetos goianos incentivam a leitura e a produção literária em um cenário no qual livros perdem espaço entre os hábitos culturais do brasileiro

Foi andando pelo Centro de Goiânia – conhecido reduto de sebos – no caminho entre a casa e a escola, que a empreendedora Giovana Belém Ogando, 20 anos, viu nascer e crescer o gosto pela leitura. Das lembranças do passado recente e do desejo de ter o próprio negócio, surgia o Evoé Café com Livros, em 2012.
O local é dedicado à venda de obras usadas. Mas não só. É, sobretudo, ponto de encontro. “As pessoas se sentem acolhidas quando em uma sala cheia de livros. Gosto de livros, de deixá-los disponíveis. O Evoé traduz o ambiente que eu procurava enquanto leitora”, filosofa.
Desde o começo do ano, o espaço também abriga a Nega Lilu Editora, capitaneada pela jornalista Larissa Mundim, 42. Criar o próprio selo não estava nos planos dela, mas ao ver o seu primeiro livro – Sem palavras – quase pronto percebeu que seria preciso. “Procurei editoras em Goiânia, mas não encontrei nenhuma que apresentasse um determinado arrojo para a compreensão do meu projeto”, relembra.
Dois dias antes do lançamento do livro, saía o CNPJ da empresa, que acaba de criar os seus selos e aposta na internet como um laboratório criativo. A editora também tem como foco projetos com crônicas e contos de autores goianos, que são submetidos à captação de recursos financeiros por meio dos mecanismos de incentivo à arte e à cultura.
Hoje, a Evoé e a Nega Lilu Editora mantêm uma agenda literária, com bate-papo entre escritores e leitores. Iniciativas necessárias quando se leva em consideração que sete em cada dez brasileiros não leram um livro sequer no ano passado. Os dados são de pesquisa realizada pela Federação do Comércio do Rio de Janeiro sobre os hábitos culturais. O estudo abrangeu 70 cidades de nove regiões metropolitanas.

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Destaque para a ficção

Entre resenhas, fichamentos e avaliações de N1 e N2, dedicar algumas horas do dia à literatura ficcional pode ser uma tarefa complicada. De olho no estímulo a essa prática, a PUC Goiás lançou, em 2013, o Leitura de Proa. Obras literárias doadas por professores, funcionários da instituição e alunos são disponibilizadas nas unidades do Programa de Orientação Acadêmica (Proa).
Coordenadora do Leitura de Proa, a profa. Annunziata Spencieri explica que o empréstimo funciona no sistema lê-devolve: não é preciso realizar cadastro para a retirada da obra. “É uma forma de estimular o respeito ao bem público”, frisa. Hoje, o prazo para a devolução é de 15 dias. Os que colaboram com o projeto doando livros têm esse período ampliado para 21 dias. “Queremos mostrar que a leitura é uma forma de diversão”, afirma.

Para as pessoas comuns

Criado há quase três anos, o Common People Reading contabiliza colaborações de vários estados brasileiros e de países como Reino Unido, Irlanda, Grécia e Estados Unidos. A fórmula simples – a divulgação de pessoas comuns lendo livros, jornais, revistas ou qualquer coisa pelo tumblr www.commonpeoplereading.tumblr.com – tem o objetivo nobre.
“Queremos tirar a leitura do pedestal. Existe um senso comum, por exemplo, que para ler é preciso ficar em um local silencioso”, explica o artista visual e designer gráfico, Wolney Fernandes, 40, um dos criadores do projeto, ao lado do jornalista Walderes Brito, falecido em 2013. A inspiração veio do tumblr Awesome People Reading, que publica fotos de pessoas célebres lendo.

Tempo é literatura

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O dilema sobre onde publicar seus textos e a angústia pelo tempo perdido com jogos e redes sociais levaram a jornalista Déborah Gouthier, 24, a desenvolver o aplicativo Diminuto. “A intenção foi criar uma ferramenta de publicação de novos autores e de estímulo à leitura, um passatempo produtivo”, comenta, referindo-se aos minicontos de no máximo 750 caracteres.
Lançada em setembro do ano passado, a startup goiana tem como sócios a designer gráfico Isabella Gouthier, 27, e o engenheiro da computação, Lucas Garcia, 24. Os resultados têm sido positivos: são mais de mil textos aprovados. É possível ler os minicontos pelo computador, no endereço diminuto.me, além de baixar o aplicativo gratuitamente no celular. “O Diminuto é um espaço em que o leitor vai encontrar estilos variados e pode ser a chance dele descobrir o que gosta de ler”, reflete