Intercâmbio entre culturas desperta polêmicas, como a da apropriação cultural; representatividade pode ser um dos caminhos para o combate ao racismo e à intolerância

Afinal, branco pode usar turbante? De tempos em tempos, essa pergunta suscita acalorados debates nas redes sociais e fora delas. Foi assim no começo do ano, quando uma jovem paraense diagnosticada com leucemia teria sido abordada por uma mulher negra, em Curitiba. Pelo Facebook, a estudante Thauane Cordeiro disse ter sido repreendida por usar o acessório – símbolo de identidade e da luta do movimento negro. A postagem em que ela refuta estar se apropriando da cultura negra e defende o uso do turbante por brancos viralizou.

Mas o que é apropriação cultural? A coordenadora do Programa de Estudos e Extensão Afro-Brasileiro (Proafro) da PUC Goiás, Janira Sodré Miranda, alerta que a questão é complexa e vai muito além de uma questão interpessoal. “Não se está cerceando a liberdade individual das escolhas estéticas. O que se questiona é o consumo desses elementos culturais como um produto que a indústria cultural coloca para compra e venda e, ao fazer isso, o retira do seu contexto original”, explana.

Ela lembra que, embora constantes, as trocas entre culturas acontecem em um contexto de disputas e hierarquizações, que têm um componente racial. Assim, o uso do turbante, por exemplo, ganha outro significado, dependendo de quem o escolhe como acessório. “O turbante comprado por uma mulher branca de classe média, passeando em um shopping de alto padrão, adquire uma aura de prestígio, de cosmopolitismo, ao passo que a mãe de santo é apedrejada quando o utiliza”, compara.

Diálogo

O coordenador do curso de História da PUC Goiás, Ivan Vieira Neto, frisa que no relacionamento entre as culturas pode existir uma imposição daquela dominante sobre as demais. Ele cita o exemplo do mundo antigo, quando os gregos expandiram seus domínios sobre o Mar Mediterrâneo, transformando sua língua na oficial. “Quando o Império Romano se sobrepôs ao Grego, a língua grega foi paulatinamente trocada pelo latim”, exemplifica. No Brasil, em 1750, o tupi e o nheengatu foram proibidos pelo Marquês de Pombal, e o português virou a língua oficial.

Por outro lado, há elementos presentes em muitas comunidades, não necessariamente de forma negativa. Um exemplo é o Papai Noel, que embora tenha suas peculiaridades de um lugar para outro, está presente nas culturas de origem cristã. “É necessário tentar buscar um diálogo que seja frutífero, positivo para todos os lados, que dê voz às culturas minoritárias e que, fundamentalmente, seja promovedor da tolerância. Essa tem que ser a palavra de ordem”, defende.

Representatividade importa

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Uma cidade com ares de fazenda, onde as pessoas usam botina e chapéu de cowboy, andam de charrete e só ouvem sertanejo. Essa, muitas vezes, é a imagem de Goiânia em produções da TV e do cinema: o crescimento urbano e a diversidade da cena musical são solenemente ignorados. A visão estereotipada faz muitas vítimas, sobretudo entre as minorias (veja exemplos no box).
“A representatividade é um elemento importante para fortalecer as culturas e para promover a tolerância, o respeito, a diversidade cultural. Quanto mais indivíduos representam uma cultura, maior a chance de conhecê-la sem estereótipo nenhum”, explica o coordenador do curso de História da PUC Goiás, Ivan Vieira Neto.

Ele alerta que em um contexto sem representatividade e com grupos privilegiados, o caminho está aberto para a intolerância. “Esses grupos não sabem que são privilegiados, naturalizam tanto suas próprias instituições e acham que elas são a norma a ser imposta a todo mundo. Quando essa norma é subvertida, temos a intolerância, inclusive com episódios de violência.”

Fique por dentro

Apropriação cultural
Elementos de uma cultura minoritária são utilizados pelo grupo dominante. Há uma normatização de determinados usos em um contexto diferente daquele da cultura original. Acredita-se que a cultura dominante suprime ou diminui a importância da original.

Representatividade
O conceito é uma qualificação ligada à quantificação. Quanto mais indivíduos representam uma cultura, maior a chance de conhecê-la sem estereótipos.

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