Se você é o que come, ler a embalagem pode ser uma grande descoberta

Bateu aquela fome, e agora? Que tal comer 500 gramas de uma deliciosa mistura que leva, entre outros ingredientes, muita pele de frango e outras aves, olhos, bicos, ossos, patas e para completar, uma pitada de miúdos? É claro que a cor e o cheiro não são dos mais agradáveis. Eis que entram em ação os corantes e aromatizantes artificiais. Triture tudo até que vire uma massa cremosa. Corte em pedaços pequenos, empane e frite. Pronto, agora é só saborear. Melhor ainda se estiver acompanhado de um copo cheio de uma combinação de água gaseificada, extrato de cola, muito açúcar e alta taxa de sódio. Gelado, é claro!
Caso não tenha assimilado, essas são descrições dos famosos nuggets e refrigerantes, só que observados pela parte de trás das embalagens. Aquelas com letras pequenas e nomes confusos. Mas que de acordo com pesquisa realizada em 2013 pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), até chamam atenção dos brasileiros. No entanto, a grande maioria, mais de 60% dos entrevistados, não entende plenamente o que lá está descrito. E na concorrência pela atenção do consumidor, empresas passam a valorizar informações nem sempre relevantes na parte da frente de suas embalagens, o que pode ocasionar uma compra equivocada, explica Ana Paula Borges Miziara, professora do curso de nutrição da PUC Goiás. “Muitas vezes as embalagens vêm com letras grandes e coloridas que chamam atenção dizendo que o produto é rico em um determinado nutriente, mas quando olhamos atrás, na descrição, o que se tem é uma quantidade muito baixa ou até zero do que é prometido.”
Foi pensando em desvendar essas informações que a consultora em comunicação para a educação alimentar e nutricional, Francine Lima, criou em 2013 no YouTube o canal Do Campo à Mesa. Em seus vídeos, que já somam mais de três milhões de visualizações, a paulistana incentiva a leitura dos rótulos de alimentos e a verificar informações nutricionais. Em um de seus vídeos mais populares, ela mostra quanto morango realmente tem um potinho de iogurte: quase nada. “O impacto que eu acho que consegui causar com esse vídeo foi o de fazer o público pensar pela primeira vez na hipótese de estar sendo enganado pela indústria de alimentos.”

 

 

 

 

 

 

Alternativas

O processo que envolve o cultivo, manejo e industrialização dos alimentos é cercado por elementos tóxicos, hormônios e antibióticos. Para ter uma ideia, em uma única amostra de tomate in natura é possível encontrar 15 tipos diferentes de pesticidas. De passagem por Goiânia, a chefe de cozinha natural e apresentadora do canal GNT, Bela Gil, prega alternativas a essa dominação química por meio do consumo de produtos orgânicos e não industrializados. “O que venho tentando fazer é que parte da sociedade mude seu padrão de consumo. Porque mudando a demanda a gente consegue mudar a oferta.” Apesar de popular, produtos orgânicos ainda possuem variação de preço se comparado com os tradicionais. Em alguns estados essa diferença pode chegar a mais de 168%. “Essa é uma questão governamental. Eles subsidiam grandes produções de grãos como a soja e isso por si só já coloca esse produtor em vantagem, comparado ao micro produtor de orgânicos. Um produto cheio de veneno ganha as prateleiras dos supermercados custando muito pouco”, diz ela.
Aluna do mestrado em Ciências da Religião, Maria Júlia Sampaio, passou grande parte da vida frequentando hospitais e tomando medicação pesada, tudo por causa do que comia. Com o tempo descobriu que além de ser intolerante a lactose, o glúten, corante e glutamato também deveriam ser banidos de sua dieta. “Não tinha saúde em nenhuma parte do corpo e nem energia para as atividades comuns do dia a dia. Por fim comecei a ser internada constantemente com úlcera, esofagite, pedra na vesícula e sentia dores o tempo todo.” Há mais de um ano adepta do crudivorismo, dieta onde os alimentos são consumidos crus, ela comemora a qualidade de vida decorrente dos novos hábitos. “Mesmo sem comprovação médica, essa alimentação viva mudou tudo. Nunca mais tive uma crise ou problema.”.

 

Nem tudo é o que parece

De fato o consumidor tem grandes chances de ser enganado. Algumas empresas se aproveitam de falhas na legislação brasileira para mascarar no rótulo o verdadeiro valor nutricional dos alimentos. Na descrição, açúcar se junta aos carboidratos; no pão vendido como integral, farinha branca continua sendo o principal ingrediente; e o termo “outros” pode abrigar os mais variados e estranhos ingredientes possíveis. E já que somos o que comemos, é sempre bom ficar de olho bem aberto. Em 2015, a Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou um guia especializado sobre as recomendações de consumo de açúcar para crianças e adultos. As orientações são de que a ingestão diária não deve ultrapassar 10% das calorias na dieta, sendo preferível consumir 5% (25g), em média, por dia. Isso equivale a, no máximo, duas colheres de sopa de açúcares. Acontece que apenas uma lata de refrigerante contém mais de 12 colheres de sopa de açúcares, 28% a mais que o recomendado. Fora isso, ingredientes como sódio (50mg por lata) e conservantes contribuem para o ganho de peso e surgimento de doenças com diabetes tipo 2 e osteoporose