Gibis, tirinhas, charges, livros. Em jornais, revistas, na internet e até na sua prova de vestibular: tem HQs em toda parte e para todos os públicos.

É possível que você já tenha se deparado com diversas histórias em quadrinhos até hoje. No Brasil, muitos de nós fomos iniciados na literatura com gibis, as revistas de histórias em quadrinhos, quando ainda estávamos aprendendo a ler. “As histórias em quadrinhos têm uma riqueza muito grande e, conosco, começam com o despertar das primeiras letras, da primeira leitura”, explica a coordenadora do Mestrado em Letras da PUC Goiás, profa. Maria de Fátima Gonçalves Lima. Como lembra a professora, mais que a leitura de palavras, as HQs possibilitam também a leitura conjunta de imagens.

Nem sempre foi assim, no entanto. A versão moderna das HQs, que é a que nós conhecemos hoje, com balões de fala e histórias divididas em quadros de imagens, surgiu só no final do século 19, em jornais dos Estados Unidos. Antes, milhares de histórias foram contadas em sequências de imagens, mas muitas sem texto ou sem as falas em balões dentro dos quadros. Isso inclui, claro, histórias muito antigas, como as pinturas rupestres e os desenhos feitos nas paredes das pirâmides do Egito, por exemplo.

Aqui no Brasil, as histórias caíram no gosto popular já na primeira metade do século 20, com personagens nacionais e alguns que já eram muito conhecidos lá fora. As HQs, claro, dominaram os principais jornais do país.

Um grande sucesso brasileiro, já na década de 1960, foi a Turma da Mônica. Os quadrinhos de Maurício de Sousa conquistaram uma legião de fãs, de diferentes gerações. Entre eles, está a graduanda em Jornalismo Ana Amélia Ribeiro, 24. “O consumo é grande, só não compro mais porque o dinheiro não dá”, afirma ela, que conheceu o mundo das HQs aos três anos, justamente com as personagens da Turma da Mônica. Hoje, suas histórias favoritas são as de fantasia e, entre os selos de preferência, está o Graphic MSP, que dá destaque às historias do Maurício de Sousa com o olhar de outros artistas nacionais.

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Quem também aprendeu a gostar dos quadrinhos com os personagens da Turma foi o professor Nélio Neves, 33, da Escola de Artes e Arquitetura da PUC Goiás. “Lá em casa, meus pais tinham uma coleção muito grande. Eu lembro que na infância eu gostava de passar a tarde lendo os que eu ainda não tinha lido”. Depois, na adolescência, foi a vez de se encantar com as histórias de super-heróis. Hoje, a coleção, que vai desde os quadrinhos da infância aos autobiográficos, que são os que ele gosta mais, já passou os milhares de exemplares. “Quando parei de contar, em 2010, já tinha uma média de dois mil”.

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Coisa séria

Até mesmo as HQs mais famosas têm como característica a reflexão sobre temas do cotidiano e a crítica social. Quem nunca viu nos X-Men, por exemplo, o apelo pela aceitação das diferenças? “É algo muito forte. Por trás do aparente lazer, tem uma questão filosófica, ideológica, uma leitura que não fica apenas no raso”, defende a professora Maria de Fátima.

Temas importantes como questões de saúde também são abordadas nas histórias. É o caso da graphic novel Pílulas Azuis (Nemo, 208 páginas), autobiografia que conta a história casal sorodiscordante para o HIV – ela tem o vírus, ele não. Outro exemplo, também autobiográfico, é do projeto Memórias de um Esclerosado, coordenado pelo cartunista Rafael Correa, diagnosticado com esclerose múltipla em 2010. Na página, criada neste ano, ele compartilha tirinhas sobre a angústias e alegrias. A ideia é transformar o projeto em livro.

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Era digital

Nos dias atuais, não é novidade para ninguém que muito do nosso consumo tem sido adaptado para os meios digitais. É o caso também das HQs. “É muito mais rápido e conveniente de ler”, defende a acadêmica de Relações Públicas Clare Neumann, 27, que tem quase 60 gigas de arquivos.

Para leitores como ela, foi lançado recentemente o Cosmic, um misto de leitor e biblioteca digital de HQs. De forma gratuita, a plataforma permite que os usuários leiam e guardem de forma organizada suas histórias em quadrinhos. Para quem quiser ter acesso a HQs on demand (por demanda), o Cosmic também deve lançar em breve um serviço de assinaturas, por R$ 15,90 mensais. O modelo lembra serviços de streaming como o Netflix e o Spotify. No último mês de novembro, a Amazon Brasil também lançou uma seção exclusiva para histórias em quadrinhos.

Nicho

Apesar de ter pouco espaço nas grandes livrarias, as HQs podem ser encontradas também em lojas de nicho. É o caso da Hocus Pocus, sebo localizado na Avenida Araguaia, no Centro de Goiânia. No espaço, comandado pelos irmãos Luiz Fafau e Moacir Júnior – e pelo gato Baixola -, os leitores podem encontrar um acervo de mais de 60 mil títulos. “Hoje, temos o maior acervo de HQs do Centro-Oeste. A loja tornou-se referência e ao longo dos anos conquistamos uma clientela fidelizada que já está na segunda geração”, afirma Fafau. Na lista de mais vendidos estão ainda os super-heróis clássicos, seguidos pelas revistas e livros de alto padrão gráfico, mangás e títulos raros e originais.

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Cultura japonesa

Febre entre os brasileiros, os mangás ganharam ainda mais espaço no país após a popularização dos animes. Entre os fãs goianos, está o professor de inglês Paulo Goulart, 27. Hoje, ele possui uma coleção com mais de 700 exemplares. Entre os títulos, estão histórias como One Piece, Sakura Card Captors, Yu-Gi-Oh, Naruto, Pokémon, Dragon Ball, entre outros.

A paixão pelos mangás levou Paulo a estudar a língua japonesa e procurar conhecer mais a cultura do país. “Hábitos não comuns a brasileiros são frequentes em minha vida, como tirar os sapatos ao entrar em casa, comemorar o dia dos mortos – Bon Odori – e comer comida japonesa. Jamais pensei que um comercial de mangás, há 10 anos, faria tanta diferença na minha vida”, lembra ele, que procurou os quadrinhos japoneses por conta de uma propaganda que viu na televisão.

Ganhando movimento

Filmes e seriados baseados em quadrinhos nunca estiveram tão em alta. Sem limite para criação, os avanços tecnológicos na área de efeitos especiais permitiram que nossos super-heróis e vilões favoritos migrassem das páginas de HQ’s para as tvs e telas de cinema. 

TV

The Walking Dead (2010) – Produzida pelo canal americano AMC, a aclamada série de televisão pós-apocalíptica já teve sua 7ª temporada confirmada para 2016. A trama conta a história de sobreviventes de uma infestação de zumbis na cidade de Cynthiana, no estado norte-americano do Kentucky. Originalmente, TWD foi criada e escrita por Robert Kirkman para ser uma HQ. No Brasil, a publicação ganhou o nome de “Os Mortos-Vivos”.
No Brasil, no canal por assinatura FX.

O Demolidor (2015) – Com sua 2ª temporada já confirmada, O Demolidor é uma aposta certeira da Marvel com a Netflix. Conforme modelo já adotado em outras produções no serviço, todos os episódios são disponibilizados de uma só vez.

Supergirl (2015) – Conta a história de Kara Zor-El (Melissa Benoist). Para quem conhece bem o universo do Superman, ela é nada mais nada menos que a Supergirl, prima do homem de aço.
No Brasil, no canal por assinatura Wanner.

Gotham (2014) – Antes de Batman, a cidade de Gotham já existia. James Gordon (Ben McKenzie) é um detetive iniciante da polícia que luta contra os famosos vilões já conhecidos na da saga do homem-morcego.
No Brasil, no canal por assinatura Wanner.

Cinema

Batman vs Superman: A Origem da Justiça – Com estreia prevista para 24 de março de 2016, o filme promete ser o embrião da Liga da Justiça, grupo de heróis da DC Comics.

Capitão América: Guerra Civil – O terceiro filme do Capitão América pretende colocar Steve Rogers (Chris Evans) contra Tony Stark (Robert Downey Jr.) em uma briga sobre a regulamentação dos heróis (se serão ligados ao governo ou independentes). Os dois fazem parte dos Vingadores, grupo de heróis da Marvel.

*Com a colaboração de Felipe Nascimento

Olhar regional

Quando criança, o cartunista Christie Medeiros de Queiroz tinha um sonho nada comum: trabalhar criando histórias. Enquanto outras crianças da mesma idade viam nas páginas dos gibis os heróis ou personagens que queriam ser, ele via um encanto. A família começou a apoiar. Deram papel, canetas, lápis e o principal: asas. Não é que deu certo? Com apenas 16 anos e com o personagem Cabeça Oca já criado, ele foi até o jornal O Popular apresentar o seu trabalho e impressionou.

Hoje, 26 anos depois, Cabeça Oca, Mariana e toda a turma já são grandes sucessos. São livros, gibis e muitos outros projetos que ainda vão surgir. Para compor seus personagens, se inspira incrementando o dia a dia. Enquanto o Cabeça é baseado nele mesmo, Mariana nasceu junto com a filha.

Um diferencial do cartunista foi o olhar para o nosso universo. Christie sentiu falta, por exemplo, de ver referências regionais em obras infantis. Foi dessa ausência que nasceu Cabeça Oca no Mundo de Cora Coralina, livro que conta a história da escritora goiana. E ele não parou por aí, trabalhou, em suas HQs, temas como as Cavalhadas e a história de Goiânia.

No próximo ano, Cabeça Oca reencontrará Cora no teatro, em abril. Outras publicações estão sendo preparadas, mas algo novo está por vir. “Tenho conversado muito para fazer animações e cinema. São projetos para 2016, 2017, 2018. Eu não tenho pressa. Quero que tudo aconteça no tempo certo”, diz ele. Estamos ansiosos!

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