Giovana-Ogando---Evoé-Café-com-Livros---Wagmar-Alves-(1)

Entre livros e cafés 

 

Foi numa tarde do mês de julho –  uma quarta-feira, primeiro dia da semana em que o Evoé Café com Livros abre – que a empreendedora Giovana Belém Ogando, 20 anos, recebeu a reportagem do PUC VC. Enquanto diagramava o novo cardápio e orientava colaboradores, ela relembrou a criação do espaço, em 2012, e resgatou sua relação com o Centro de Goiânia, conhecido reduto de sebos.

Graças à pressa de voltar para casa após as aulas, Giovana fez um mergulho na região, o que ajuda a explicar sua paixão pelos livros. Lá também foi a primeira casa do Evoé, que mudou-se para o Setor Sul no ano passado, ampliando o leque de atividades. Mensalmente, são oferecidos eventos culturais – como saraus e apresentações musicais -, além de bate-papos com autores e um cardápio diversificado.

Inquieta, Giovana cursou dois anos de Ciências Sociais e um semestres de Artes Visuais até se encontrar nos livros e no empreendedorismo. Corpo esguio, voz pausada, Gi –  como é chamada pelos amigos – imprime a leveza pessoal ao Evoé. “Lembro de tentar ir em vários lugares e as vezes não conseguir o que estava buscando: um espaço que eu pudesse encontrar livros, ficar tranquila, uma leveza. É mais isso: propor um espaço que é o que eu mesma queria que existisse antes de montar o Evoé.”

Confira o bate-papo!

 

PUC VC: Quando surgiu o projeto do Evoé? Foi algo pensado por você ou por um grupo?

Giovana: Existem muitas pessoas junto. Todo mundo que trabalha comigo ajuda bastante. E todo mundo que já trabalhou comigo, todos meus amigos, minha família, me apoiam bastante, sabe? E apoiam o Evoé, acreditam no projeto. Estou tentando estabelecer a ideia que todo mundo que trabalha aqui seja membro participativo da empresa, das ideias. (…) Aí a galera vai setorizando, mas, ao mesmo tempo, no processo geral, durante boa parte do tempo, foi bem eu [sozinha], assim. Mas hoje em dia eu ando tendo a oportunidade de ter pessoas para me ajudar.

PUC VC: O Evoé começou no Centro de Goiânia, certo?

Giovana: Sim, era um lugar bem pequeno, mas muito aconchegante [ela mostra uma foto do antigo local, no notebook]. Tinha essa fachada de madeira, era na Rua 3,  na Galeria Central. Aí esse elemento da fachada que é de um azulejo português a gente resgatou com um arquiteto chamado Guilherme Rogado, que faz um trabalho em lambe-lambe e trabalhos gráficos em papel. Aí a gente diagramou, modificou algumas coisas e usou essa mesma expressão gráfica no balcão.

E a gente tenta manter essa coisa do intimismo, que lá era muito mais forte. Você chegava, tinha um balcão, um café, eu e era quase uma entrevista [risos]. No Centro, o Evoé foi inaugurado em setembro de 2013. Na época eu tinha feito 18 anos. E lá era “muito loucura”, porque era eu sozinha: de contabilidade a limpar o chão, servir o café, fechar as contas. Tinha uns dias, quando dava muita gente, tinha até 80 pessoas. Mas era muito interessante. Era um espaço bem legal, sabe?

PUC VC: E você decidiu vir para o Setor Sul para ampliar o espaço?

Giovana: Na verdade, lá era muito pequeno, muito mesmo. Qualquer espaço que eu fosse já seria crescer. Na verdade, surgiu a oportunidade dessa casa porque durante um ano eu trabalhei com produção de eventos, com um amigo, aí pensávamos em abrir um espaço para essa empresa. Olhamos um lugar, inclusive essa casa [no Setor Sul], mas o valor era inacessível e o contrato era por imobiliária. Ainda estávamos pensando no projeto e não tinha como fazer investimentos muito altos.

Passou um tempo, comecei a trabalhar em restaurante, surgiu a oportunidade de montar o Evoé e eu montei e ficou essa casa. Estava pensando sobre sair da Galeria Central e falando sobre as casas que achava legal com uma pessoa, que conhecia quem era a dona. Consegui fazer um acordo de aluguel possível e mudar para cá, um espaço muito maior do que o anterior. E deu muito certo. A mudança foi algo que eu queria que acontecesse, mas que aconteceu por causa de algumas coincidências.

Deborah-Gouthier---Aplicativo-Diminuto---Ana-Paula-Abrão-(14)

PUC VC: E esse componente literário?

Giovana: Tem algumas coisas na minha memória que são muito fortes, que eu tenho repetidas vezes, assim. Alguns lugares que eu passava na cidade e que gostava e até hoje tenho isso: preciso virar para olhar uma casa, por exemplo. Quando era criança, tinha um livro que gostava muito e sempre lia. E esse livro infantil me marcou muito. Era a história de uma galinha que trabalhava muito, colhia o trigo, plantava e no final comia o pão desse trabalho. E o pão era muito bonito. Parecia um pedaço de ouro. Eu ficava maravilhada com isso. Sempre que eu pude ter acesso a livros eu sempre lia. [A entrevista é interrompida com a chegada de João, fotógrafo e designer que Gi descreve como “um grande amigo, que até as escadas me ajudou colocar, pregos na parede…”].

Sempre gostei de ler, fui buscando livros. Aquela coisa de ir ao shopping ou na Saraiva, na biblioteca do colégio, que também tinha poucos livros, sabe? Depois de um tempo, acho que para mim um marco muito importante foi que eu tinha muita pressa. E sempre demoravam para me buscar no colégio. E eu comecei a sentir que poderia em embora sozinha do colégio para casa. Estudava perto da Praça do Avião, no Setor Aeroporto, e morava perto da 10 [Setor Universitário]. Então atravessava o Centro para vir para casa. E para mim isso era muito bom porque comecei a ter liberdade, a amar e me apaixonar pelo Centro. E comecei a passar pelos sebos do centro da cidade. Todos os dias eu passava [nos sebos] e uma vez a cada duas semanas eu comprava um livro. E fui compondo meu acervo e conhecendo pessoas pelo Centro, pelo Cine Ouro, que na época tinha a Fábrica de Cultura Coletiva, na Rua 3, e fui criando um núcleo de amigos ao redor disso.

Quando surgiu a oportunidade do Evoé foi assim: dada aquela pesquisa que eu fiz sobre a casa [no Setor Sul] para a produtora, minha mãe ficou sabendo. Conversei com ela. Passou um ano, ela disse: “Gi, tenho um imóvel que está disponível. Você não quer montar alguma coisa lá? Você  não queria naquela época? Eu te empresto um dinheiro e começa a usar o espaço.”

Eu disse: tá bom! Não trabalho mais com a produtora. Tive essa experiência de trabalhar em restaurante, tenho muito livro. Gosto de café, gosto de vinho. Vou vender isso, que é coisa que eu tenho pra vender. Vou comprar café, vender café. Comprar vinho, vender vinho. Pegar meus livros e começar a circulá-los. Então foi isso: não foi exatamente um plano de negócios.

 

 “Todos os dias eu passava nos sebos e uma vez a cada duas semanas eu comprava um livro. E fui compondo meu acervo e conhecendo pessoas pelo Centro de Goiânia”

 

 

 PUC VC: Pela sua fala, dá para perceber que você tem uma relação afetiva com o livro…

Giovana: Sim, com o livro e com a cidade também. Gosto muito de Goiânia e do Centro. Lá na Galeria Central eu lembro de uma vez – lá era muito pequeno, né, tinha dia que não aparecia uma alma viva para tomar um cafezinho e eu ficava lá sentada, esperando alguém aparecer – teve um dia que fiquei muito agoniada de ficar quieta, parada. Eu fiquei desde as 10 da manhã até as cinco da tarde naquela sala. Peguei, tranquei a porta e fui dar uma volta no Centro só para ver aquele monte de rosto, aquele monte de gente, aquele monte de vida. Então isso para mim é muito importante, até hoje Quero se possível, em algum momento, voltar para o Centro.

 

PUC VC: No começo, você colocou seus próprios livros para circular. Como você montou seu acervo?

Giovana: Ainda tem muito livro que é do acervo inicial, tem muita coisa que é doação, muita coisa que as pessoas trazem pra gente. Sempre são livros interessantes que as pessoas acabam trazendo. E tem muita coisa que a gente troca. Ou que eu viajo, vou nos sebos de São Paulo e procuro boas compras para poder revender. Mas sempre tento trabalhar com livros usados. Gosto dessa ideia do livro circular. Nunca consegui ter memória afetiva com loja de livro novo. Sempre tive muito afeto com as lojas  de livro usado. As dedicatórias que você nos livros. Você pega o livro e tem uma dedicatória, foi de uma pessoa, numa outra época. Gosto muito de abrir mão dos meus livros também. Acho que são uns quatro livros que guardo em caso. O restante está todo aqui. Mas esses quatro que estão em casa  ou é poesia, ou é crônica. São coisas que eu sempre revisito de modo aleatório.

“Sempre tento trabalhar com livros usados. Gosto dessa ideia do livro circular. Nunca consegui ter memória afetiva com loja de livro novo”

 

PUC VC: Depois que você veio para o Setor Sul os produtos que a casa oferece puderam ser mais diversificados, não é?

Giovana: A gente tenta tornar as coisas mais elaboradas. Foi para além do café. Mas, ao mesmo tempo, não temos uma cozinha de jantar e tudo mais. Mas temos opções de prato principal, mas também muitas opções de quitandas, sanduíches e doces. Temos algo de vinho também para as pessoas poderem apreciar. Também temos algumas coisas de cerveja artesanal, normal, alguns drinks. Estamos adicionando uma carta com opções de café gelado. Temos opções de chá gelado, chá nacional e importado. Inclusive, um dia desses, conversando com um cliente fora daqui e ele disse que o chá mais gostoso, mais surpreendente que ele tomou na vida foi aqui no Evoé: romã com cranberry. Mas a gente mantém uma diversidade. Porque às vezes as pessoa vem a noite, quer uma coisa mais boêmia e é possível de se encontrar.

PUC VC: E isso acaba atraindo também um outro tipo de público que vê o Evoé como um ponto de encontro….

Giovana: É até engraçado. As pessoas se encontram muito aqui. As vezes estão chegando e tem um amigo que está saindo, fechando a conta. Mas é bem isso. Ser um ponto de encontro para mim é muito importante. É o que dá vida ao espaço.

PUC VC: E esse foco na literatura, como é que o público recebe?

Giovana: As pessoas gostam bastante, sabe? Você vê até pessoas que as vezes você pensa: “ah, não vai se interessar!”. Mas se interessa. Eu acho que existe um interesse geral sobre cultura, mas não como uma coisa inatingível, mas como algo do cotidiano mesmo. Tem muita gente que para, lê e tal. Tem muita gente que não param desce, toma um café, e vai embora. Tem muita gente que vem e doa livro. O público é muito diverso e surpreendente também. As reações são as mais diversas, mas sempre muito positivas, num âmbito geral É engraçado isso. As pessoas se sentem acolhidas quando veem uma sala cheia de livros. Muitas vezes a parte dos livros tem a ver com essa parte de tornar algo próximo. A lembrança afetiva, conceitual do que é o livro, traz muitas memórias. E eu acho interessante o espaço trazer isso.

Giovana-Ogando---Evoé-Café-com-Livros---Wagmar-Alves-(8)

PUC VC: Você pensou esse ambiente para fomentar a leitura?

Giovana: Sim, mas acho que existe um grau de pretensão em pensar (imitando uma voz afetada) “vou fazer um espaço para que as pessoas se nutram do conhecimento”. Não é assim. Eu gosto de livro. Gosto de deixar os livros disponíveis para a venda. E acho que é interessante também termos espaços para isso. Lembro da época que eu andava pelo centro da cidade e buscava um lugar para ir. Eu lembro de tentar ir em vários lugares e as vezes não conseguir o que eu estava buscando, que é um espaço que eu pudesse encontrar livros, ficar tranquila, uma leveza. É mais propor um espaço que é o que eu mesma queria que existisse antes de montar o Evoé. Se isso fomenta ou não, se acontecer, é um ótimo resultado, que me deixa muito contente. Mas também não é nada muito chato e formal (imitando uma voz afetada) “estamos aqui em um ambiente que você vai ler”. Faz parte de um contexto geral da coisa. Tem música, tem arte visual, tem comida, tem cafés.

PUC VC: Sempre tem uma agenda cultural, rotativa, com coisas novas. Como você pensa tudo isso?

Giovana: Cada evento é um evento. Combino com a própria banda se vai ter bilheteria, couvert. Tem muita produtora que vem, que quer fazer um evento. Quem coordena a agenda sou eu, mas a agenda é formada por todo mundo que quer participar. Tem evento que eu organizo por minha conta, como a feira de trocar que a gente faz de vem em quando. Mas, por exemplo, todo show que eu tenho aqui, ou toda festa que a gente monta, às vezes tem uma produtora ou uma banda que ajuda a organizar. A agenda é aberta para quem tem pauta.