A partir do século XX, a profissão de fotojornalista revolucionou a maneira a partir da qual contamos a história e refletimos sobre fatos marcantes da humanidade

Até o final do século XIX, retratar momentos históricos era algo que somente a pintura podia fazer – reis, burgueses e trabalhadores posavam para que pintores pudessem contar suas histórias em telas. A fotografia, resultado da incidência da luz sobre o papel, revolucionou a maneira como as histórias eram contatas até então. Tornou-se possível congelar um momento em poucos segundos, retratar a realidade como nunca antes.

O jornalismo mudou a partir do advento da fotografia – a guerra da Crimeia (1853-1856) foi a primeira cobertura de um evento mundial a partir de imagens e desde então contar histórias esteve completamente relacionado à capacidade de congelar momentos importantes em fotografia. Nasce, no início do século passado, a profissão de fotojornalista: aquele capaz de ver além de seus olhos e eternizar momentos em imagens.

A retratista do jornal Folha de S. Paulo, Karime Xavier, conta que desde a infância se interessava por fotografia. Antes mesmo da popularização das câmeras digitais ela já andava por toda parte tirando fotos com uma câmera que ganhou da família. Ela, que não se considera fotojornalista mas sim retratista (fotografando pessoas), conta que começou em um mundo analógico que, segundo ela, é fundamental para que o profissional da área tenha domínio técnico da fotografia.

KARIME-X
“Comecei a trabalhar em Curitiba. Fiz Direito, Publicidade e depois Jornalismo, e não segui carreira. A fotografia sempre esteve presente. Me deram uma Nikon vinda do Japão quando era jovem e eu não largava da câmera. Isso foi em 1993 e não havia câmera digital, o mundo ainda era analógico e pensar em luz e tudo isso que as câmeras manuais me permitiram, me deu respaldo para legitimar o que eu fotografo”, conta ela.

Também apaixonado por fotografia, o fotojornalista do jornal O Popular, egresso do curso de Jornalismo da PUC Goiás, Marcello Dantas, está na oitava edição do livro O Melhor do Fotojornalismo Brasileiro 2016, que reúne as melhores fotos jornalísticas do ano, e também conta histórias de como sua família influenciou para que ele se apaixonasse por fotojornalismo e decidisse seguir em frente com a carreira.

“Nasci em Uruaçu e fui estimulado pelo meu pai que trabalhou em rádio e jornal impresso e é engraçado que eu saia do colégio e ia para o jornal e eu sempre convivi nesse meio”, diz Marcello, que também começou a fotografar em câmera analógica aos 14 anos para o jornal do pai.

Desafios

Para ser fotojornalista, em geral, o mais importante é ter um olhar diferente em relação ao mundo – isso é fruto de uma vida dedicada à reflexão, leitura e compreensão do mundo. Por isso mesmo, apesar de não haver um curso específico para a área nas universidades brasileiras, a maioria dos fotojornalistas iniciam suas carreiras tendo experiências em cursos como Jornalismo e Publicidade e Propaganda, ou seja, cursos na área da Comunicação.

De acordo com a professora de Fotojornalismo do curso de Jornalismo da PUC Goiás, Deborah Borges, o interesse pela fotografia nasceu durante o período em que cursou Jornalismo. Para ela, a fotografia tem o poder de sintetizar “informação, interesse visual e emoção”. Ela reflete, por exemplo, sobre a icônica imagem de uma menina nua correndo fugindo de bombas durante a guerra do Vietnã como um momento marcante para a profissão, e também um atestado acerca da necessidade do profissional da área em manter uma postura crítica em relação ao mundo em que vive.

“Esta fotografia jornalística, hoje, é o maior ícone visual da Guerra do Vietnã, e também é evocada frequentemente quando se faz referência ao horror das guerras em geral. Assim, a fotografia tem um grande poder de comunicação que fascina muitos alunos já na faculdade. Quem deseja seguir esse caminho deve, claro, buscar conhecimento técnico, saber sobre equipamentos e técnicas fotográficas, mas, principalmente, deve manter-se sempre bem informado, ter uma postura crítica diante dos fatos. Isso será fundamental para que o profissional consiga fazer fotografias”, explica a professora.

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Crédito Victor Rodrigues

Para o fotojornalista do O Popular, Marcello Dantas, um desafio imposto pela contemporaneidade é a necessidade de estar sempre atento às mudanças tecnológicas em relação ao mundo, além, é claro, de uma boa leitura do que acontece ao redor do profissional. “O desafio é estar atento a tudo, é preciso estar ligado às inovações tecnológicas que muitas vezes chega aqui muito depois. É preciso estar sempre lendo sites sobre fotografia para não estar por fora”, explica Marcello.

Tendo começado a carreira antes da revolução tecnológica, Karime Xavier diz que os desafios da profissão mudaram muito – uma das questões levantadas por ela é que, apesar do preço atual, câmeras fotográficas são muito mais acessíveis hoje. No início de sua carreira, Karime conta que começou a comprar equipamentos à medida em que levantava dinheiro com os trabalhos que realizava.

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Crédito: Delcio Gonçalves

Acima do aparato tecnológico, segundo ela, é preciso que o fotojornalista reflita sobre seu lugar no mundo e descubra qual área o atrai e qual caminho ele deve seguir. “O maior desafio do fotógrafo é se encontrar. Eu quero ganhar dinheiro, serei documentarista, trabalharei em jornal, fotografando casamento, ou sendo documentarista? Eu acho que é importante descobrir sua pegada”, diz a retratista da Folha de S. Paulo.

Para aqueles que desejam trabalhar na área, a dica dos profissionais é buscar o máximo de informação possível sobre fotografia e também sobre o mundo, de um modo geral.