Likes e conteúdos compartilhados unem mulheres em busca de igualdade e de oportunidades

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Fenômeno dos últimos anos em todo o mundo, as redes sociais ganharam a população com a possibilidade de facilitar encontros, compartilhar conteúdos e divulgar opiniões. Mas para além dos cumprimentos e das frases prontas, é também na internet que as mulheres se encontram. Grupos e movimentos usam o espaço virtual também como ferramenta de ativismo social, partilha e rede de apoio. O feminismo 2.0 já é uma realidade e tem diversas facetas, desde a discussão dos conteúdos teóricos ligados a igualdade de gênero até a sororidade feminina ampliada com trocas de contatos e ajuda mútua entre mulheres.

Grupos como Think Olga, Escreva Lola Escreva, Capitolina, Lugar de Mulher, Ativismo de Sofá e Indique uma mana, este último organizado em Goiânia, trazem para as redes sociais discussões que vão desde abuso sexual contra mulheres, defesa da escolha feminina na hora do parto até empreendedorismo feminino. Campanhas que viralizaram como Chega de fiu fiu ou Nenhuma a menos unem usuárias com realidades diferentes em uma só voz.

Fazemos o acompanhamento das vítimas nas delegacias, ajudamos nos encamihamentos para assistência social e realizamos as diligências necessárias para diminuir o estado de vulnerabilidade
Thais Moraes

As discussões e postagens sobre feminismo e machismo trazem amplas reflexões para toda a sociedade e abrem caminhos para mudanças necessárias. Pesquisa realizada pela agência Énóis Inteligência Jovem, em parceria com os institutos Vladimir Herzog e Patrícia Galvão, mostra que 39% das jovens mulheres brasileiras já sofreram algum tipo de preconceito na escola ou na faculdade relacionado ao gênero.

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Nesta realidade, acrescida de violência doméstica e assédio, elas se encontram nas redes sociais para formular respostas, receber apoio e discutir as mudanças necessárias na sociedade para que os espaços garantam respeito aos homens e às mulheres, independente dos seus gêneros.
Para a professora da PUC Goiás, Gabriella Alvarenga, coordenadora do Programa Interdisciplinar da Mulher, Estudos e Pesquisas, as várias correntes do feminismo atual estão representadas nas redes sociais. “Entendemos como positivo porque muitas pessoas são articuladas pela internet e acabam despertando para este conteúdo. A internet dá voz para todos”, afirma Gabriella.

Participante de grupos no Facebook e no Whatsapp, a professora acredita que a rede facilita a integração e a formação de novas pessoas dentro do feminismo. “Os posts fortalecem as mulheres para lutar por algumas causas”, garante. O desafio é a qualificação do conteúdo e vencer as leituras superficiais. As opiniões radicais de quem muitas vezes só leu um post sobre o tema são a preocupação de Gabriella. O objetivo é, sobretudo, garantir que o tema não ganhe votos contrários, por causa de algumas colocações, e que ganhe adesão e compreensão em toda a sociedade.

É com a internet que vozes de mulheres como da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, escritora e feminista, da americana Angela Davis, também escritora, da jovem paquistanesa Malala Yousafzai, ganhadora do Nobel da Paz, da atriz inglesa Emma Watson e, mais recentemente, da cantora pop americana Beyonce se amplificam e chegam a um número cada vez maior de pessoas em todo o mundo. Todas são ativas e fazem da internet um campo aberto para discussões sobre o tema, ganhando seguidores em todos os continentes, onde suas frases e discursos viralizam logo após a primeira curtida.

Mas o que está na tela também vale do outro lado? Esta é a grande questão para feministas em todo o Brasil, muitas delas presentes nas manifestações do último dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher.

Tudo indica que sim. Mesmo que mais barulhento e fácil, o manifesto virtual amplia as possibilidades também no cotidiano das pessoas. Muitas manifestações e eventos são primeiro organizados no facebook, por exemplo.

A advogada Thaís Moraes de Sousa, egressa da PUC Goiás, conheceu o feminismo ainda no movimento estudantil e começou a militar pela causa devido à sua ligação com os direitos humanos. “Hoje a realidade da minha vida mudou bastante, sou mãe de duas crianças e também dedico meu tempo ao trabalho e estudos, porém achei nas redes sociais uma saída para utilizar minha profissão como mecanismo de ajudar muitas mulheres”, explica a bacharel em Direito.

Ela oferece assistência jurídica gratuita para casos de violência contra as mulheres. A maioria é informada pelas redes sociais, seja whatsapp ou facebook, em grupos do qual ela participa. “Fazemos o acompanhamento das vítimas nas delegacias, ajudamos nos encaminhamentos para assistência social e realizamos as diligências necessárias para diminuir o estado de vulnerabilidade e abalo psicológico que essas mulheres sofrem. Isso pra mim é praticamente a realização de um sonho. Acredito no feminismo e poder retribuir à sociedade através da minha formação profissional tem sido gratificante”, garante Thaís, que também não se furta a sair para as ruas quando a pauta exige.

Outra advogada nas redes é Heloise Marinho Gontijo Lucas, 32, que atua como autônoma na área de vendas e na organização de projetos ligados ao empreendedorismo materno. Mãe de dois filhos, ela se viu com o nascimento da caçula, Manu, 2 anos, diante de questões como humanização do parto, maternidade ativa, empreendedorismo materno, feminismo, que a fizeram desejar discutir e aprender mais sobre as temáticas.

Helô, como é conhecida, é uma das líderes em quatro grupos de mulheres as redes sociais. “Eu quis dividir com as outras tudo aquilo que eu aprendi, como uma forma de ativismo mesmo”, explica a advogada. Em um deles, o empreendedorismo feminino saiu das redes e se tornou um projeto de feira materna com produtos feitos e vendidos por mães para mães. É assim que os slings (pedaço de pano para transportar bebês de Helô vão parar na casa de outras mães como ela.

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A estudante Rheder Landim, 23, do curso de Análise e Desenvolvimento de Sistemas da PUC Goiás, une as práticas virtuais e reais para divulgar o feminismo. “O movimento traz o debate de equidade de gênero, além de ensinar a nós mulheres que devemos ser respeitadas e que não somos obrigadas a concordar com tudo que nos é imposto”, afirma a ativista, que participa de grupos de discussão sobre feminismo negro e materno. “Além de participar de debates pela rede, vou a passeatas a favor do direito da mulher. Também participei de debates sobre o direito da criança e do adolescente. Todas as experiências foram ótimas para minha formação filosófica”.

Sempre muito questionadora, Rheder se viu, após o término de uma relação amorosa abusiva, diante de questionamentos sobre a forma como as mulheres são tratadas. “Conheci um grupo de pessoas na internet que me explicaram de forma didática várias pautas feministas e debates sobre gênero. Já sofri misoginia e racismo. O sexismo na minha área é frequente, mas eu escolhi não me calar diante da opressão”. E assim sua voz surge junto com outras na internet para fazer a defesa e o empoderamento feminino.

Formação, mobilização, atuação e vivência. Estes são os sustentáculos do feminismo nas redes. Para a especialista no tema, Gabriella Alvarenga, é importante que os grupos e os perfis atuem para fortalecer e fazer as mulheres serem ouvidas, mas sem se esquecer da solidariedade fora do campo virtual. “Um post pode ter até mais de 100 comentários, que farão a mulher se sentir acolhida, no caso de um desabafo ou denúncia. Mas o ideal é que extrapole a rede. Sem um abraço, todas nós nos sentimos sozinhas”.

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